08 de Outubro de 2019
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"Melhor ser avisado do que receber nota baixa": o que motoristas de Porto Alegre acharam da modalidade da Uber sem conversas

A partir de novembro, app dará ao passageiro opção de manifestar preferência por silêncio durante a viagem

Rodrigo, que pretende lançar um perfil em redes sociais sobre a experiência como Uber, vê pontos positivos na novidadeRobinson Estrásulas / Agencia RBSA Uber anunciou para novembro a modalidade Comfort, que deve substituir a Select. A ideia é que, por um pequeno acréscimo no valor da viagem, o usuário possa ter comodidades como condutores mais experientes, bem avaliados, ar-condicionado previamente ajustado e - a mais polêmica - sinalizar ao motorista que prefere não conversar ao longo do trajeto.

Em redes sociais, a medida recebeu críticas por supostamente monetizar a desumanização das relações de trabalho. GaúchaZH consultou motoristas do aplicativo ao longo da tarde de terça-feira (8), em Porto Alegre, sobre a novidade, e ouviu prós e contras para quem está ao volante. Em linhas gerais, eles se mostram compreensivos, e concordam em um ponto:

- É melhor que o usuário me avise antes no aplicativo que não quer conversa do que, depois da corrida, dar uma nota baixa por eu ter puxado assunto - opina um motorista de 33 anos, motorista do aplicativo há três anos.

Ele desconfia que isso pode ter ocorrido justamente na noite anterior, quando fez uma pergunta sobre o caminho de preferência do passageiro e recebeu uma resposta atravessada - "se tu tem GPS, usa". Logo que o cliente saiu do carro, o condutor percebeu que a nota havia baixado alguns décimos, sinal de que recebera poucas estrelas na avaliação:

- Pode (ter sido) e pode não ter sido isso. Tem gente que avalia mal porque acha que pode ganhar um desconto depois. Tem essa lenda. Ou porque não gostou do meu boné, da música no meu rádio... Às vezes, não dá para saber. Então, quanto mais transparência sobre o que o passageiro quer da corrida, melhor.

Tem gente na Uber que se enxerga como o patrão. O carro é dele e ele puxa conversa se quiser, entende? Portanto, acho que essa opção pode ser interessante.MOTORISTA DE 31 ANOS

Uma unanimidade entre os motoristas é que é compreensível uma pessoa não querer conversa, por inúmeras justificativas. Pode que o passageiro queira trabalhar no caminho, descansar, ser tímido ou, a mais comum, simplesmente não estar em um bom dia. Mas afirmam também que não é difícil detectar a propensão dos clientes a bater papo.

- Basta um pouco de bom senso para ver o humor da pessoa. Acho fácil perceber. Mas é que eu me vejo como um prestador de serviço. Tem gente na Uber que se enxerga como o patrão. O carro é dele e ele puxa conversa se quiser, entende? Portanto, acho que essa opção pode ser interessante - opina outro condutor, de 31 anos e um ano e meio dirigindo pelo aplicativo.

Diferentemente de outros motoristas, que optaram pelo anonimato, Rodrigo Braz, 39 anos, faz questão de se identificar porque pretende transformar as conversas do dia a dia em um perfil de Instagram, com transmissões para trocar ideias com os seguidores sobre o que ouve dos clientes - sem identificá-los, esclarece. Embora ainda não tenha inaugurado, o perfil @umuberdepoa já está reservado na rede social.

Entendo uma passageira que use essa opção ao sair à noite para evitar um "Uber Don Juan". Logo de cara ela sinaliza que não corresponde ao que o cara pode estar imaginando dela.RODRIGO BRAZ, 39 ANOSmotorista pela Uber

- Logo que eu soube dessa novidade, confesso que fiquei meio chateado. Eu gosto muito de conversar. Depois pensei melhor e, quer saber? Talvez seja melhor saber de antemão mesmo. Mas tenho um pouco de pena dessas pessoas. Além de não quererem interagir, não conseguem nem dizer isso pessoalmente numa boa - avalia Rodrigo.

Ele aponta ainda a serventia dessa modalidade para evitar casos de assédio:

- Entendo uma passageira que use essa opção ao sair à noite para evitar um "Uber Don Juan", algo que é chato e pode acontecer. Logo de cara ela sinaliza que não corresponde ao que o cara pode estar imaginando dela.

Segundo Wagner de Lara Machado, professor da Psicologia da PUCRS e coordenador de um grupo de pesquisa sobre bem-estar e saúde mental, o comportamento de pagar para evitar interações pessoais e tentar controlar o imprevisível, como a possibilidade de ter ou não uma conversa em um Uber, tem algo a dizer sobre o momento da nossa sociedade.

- Falar para o motorista no tom de voz correto que não quer conversar já exige um nível de assertividade e de sociabilidade que as pessoas, hoje em dia, às vezes não têm. Ou não estão dispostas a ter. É paradoxal: vivemos um tempo em que estamos todos interconectados, mas perdendo as relações mais íntimas.

Falar para o motorista que não quer conversar já exige um nível de assertividade e de sociabilidade que as pessoas, hoje em dia, às vezes não têm. É paradoxal: estamos todos interconectados, mas perdendo as relações mais íntimasWAGNER DE LARA MACHADOProfessor da Psicologia da PUCRS

Nesse ponto, ter um botão para sinalizar ao motorista que não quer conversa se aproxima a outros comportamentos recentes, como evitar telefonemas, pedir comida sem ajuda de um telefonista ou mesmo não comparecer a um encontro sem que o interesse mútuo esteja previamente referendado por um aplicativo. Embora o professor faça uma ponderação:

- É tênue a linha entre a preocupação com um serviço prestado adequadamente e essa rejeição a uma interação social. Em um ônibus, em uma lotação, não se deve conversar com o motorista. Talvez a preocupação seja semelhante. O passageiro prefira um motorista 100% focado no trânsito enquanto ele descansa, resolve problemas, etc.

Há ainda motoristas que não botam muita fé na eficiência da ferramenta. A mesma falta de traquejo social que impede o passageiro de manifestar pessoalmente sua preferência pelo silêncio pode impedi-lo de fazer essa opção na hora da corrida. Com 31 anos e três e meio na Uber, um deles brinca:

- Se aparecer um passageiro que não quer conversa na minha tela, vou levar ele numa boa. Mas certo que ele já entra no carro com o rótulo de "chato de galocha" escrito na testa.