26 de Março de 2020
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Coronavírus, gravidez e amamentação: o que se sabe até agora

Médicos defendem que grávidas precisam estar em alerta mesmo fora do grupo de risco

Os grupos mais vulneráveis ao novo coronavírus, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), são formados por idosos, pessoas com problemas respiratórios e doenças crônicas  - como diabetes e hipertensão. É isso mesmo: as grávidas estão fora da lista. Mas, ainda assim, as gestantes precisam ligar o alerta, na opinião dos médicos. As pesquisas dos efeitos da covid-19 em mulheres prestes a dar a luz ainda são incipientes.  

- Neste momento, estamos construindo o conhecimento dia a dia - avalia Silvana Quintana, professora da faculdade de medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP) e integrante da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

Para entender os impactos do coronavírus na gravidez e na amamentação, conversamos, além da ginecologista, com o infectologista pediátrico do Hospital Moinhos de Vento Marcelo Comerlato Scotta, que também é professor adjunto da PUCRS e integra a Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Sul, e com a endocrinologista Lenita Zajdenverg, integrante da Sociedade Brasileira de Diabetes. Fique por dentro do que se sabe até agora sobre o tema: 

Afinal, qual o risco? Antes de tudo, é importante alertar que as informações sobre o coronavírus podem mudar a qualquer momento. A cada dia, estudos são realizados, dados analisados e novas diretrizes discutidas entre os especialistas e as entidades médicas. Por enquanto, explica Silvana, é possível afirmar que há boas razões para as grávidas não integrarem o grupo de risco da covid-19:

- Quando se mapeia a faixa etária ou a situação que tem o maior número de casos de coronavírus, as gestantes não aparecem em maior número em comparação ao restante da população. Mas, mesmo assim, toda a grávida precisa ser encarada como se fosse uma pessoa com riscos. Elas precisam ser cuidadas e orientadas. 

Há principalmente pesquisas chinesas sobre o tema que balizam as orientações até o momento - segundo a ginecologista, uma revisão recente da literatura médica apontou que existem pelo menos 32 casos documentados no mundo. A apreensão inicial era de que as gestantes fossem tão suscetíveis ao vírus como na época da H1N1, ressalta a médica:

- Tivemos um curso muito mais grave nessas mulheres, tinha risco de óbito materno na H1N1. Quando surgiu o coronavírus, ficamos com medo, pois é um vírus de gripe. O que observamos até agora: não foi registrado nenhum caso da mãe transmitindo para os bebês e nenhum óbito materno. Então, ficamos mais tranquilos para instruir as grávidas que precisam seguir com o pré-natal e prevenir a infecção.

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Tempo de gestaçãoOs estudos existentes são baseados na faixa etária de mulheres entre 27 e 40 anos. Além disso, todas estavam no fim da gestação, principalmente no último mês. Assim, não há certeza do impacto do coronavírus em mulheres que estão grávidas há pouco tempo.

- Nessas gestantes que estavam na reta final, notou-se alguns nascimentos de bebê pré-termo, prematuro. Isso pode se dever ao fato de uma infecção materna, de dificuldade para respirar. O que nos deixa mais preocupados enquanto médicos é o indicativo de prematuridade. Se a prematuridade for muito precoce, pode ter uma taxa de mortalidade. Mas, por enquanto, não há documentação disso - afirma Silvana.

Meu filho está em perigo?Uma dúvida de 10 entre 10 grávidas: caso ocorra o contágio ainda na gestação é possível passar o vírus para o bebê dentro da barriga? A resposta é simples: não. De acordo com o infectologista pediátrico, até o momento não foi constatada tal possibilidade:

- Não houve comprovação de transmissão durante a gestação ou no parto. Embora o conhecimento ainda seja muito inicial a respeito, as evidências até o momento sugerem que não é possível.

Amamentação em xequeAinda não há evidências de que o coronavírus seja transmitido pelo leite materno. Ou seja: a amamentação está mantida, inclusive para mulheres infectadas ou com suspeita de contágio pela covid-19.

- O que indicamos para esse grupo é o uso de máscara para amamentar, higienizar a mama antes de amamentar, lavar bem as mãos. Essa mulher infectada precisará de auxílio, tem cuidados diferentes da demanda da amamentação comum - destaca a ginecologista. - Há dois casos que temos conhecimento de recém-nascidos infectados. Mas tudo aponta para uma transmissão horizontal, que ocorre pelo contato da mãe com o bebê após o parto, os cuidados em si. É difícil porque a mãe não pode beijar o bebê, tem que cuidar o espirro, a coriza, é muito difícil.

Já o infectologista pediátrico faz uma sugestão para esses casos:

- Se for viável, pode-se ordenhar o leite materno e o bebê ser alimentado por outra pessoa que esteja sem sintomas.

Parto vaginal ou cesárea?Caso uma gestante seja contaminada pelo coronavírus, o parto normal não está descartado. Não há evidências de contaminação pelas secreções do canal vaginal. 

- A princípio, pode evoluir para parto vaginal sem problema algum. Já as gestantes que estão acometidas severamente pela infecção, é preciso avaliar caso a caso - diz a ginecologista Silvana.

De olho na pressão e no diabetesHá mulheres que apresentam pré-eclâmpsia (pressão arterial elevada) e diabetes gestacional durante a gravidez. Nesses casos, é preciso redobrar o cuidado.

- Essa paciente passa a ter dois fatores importantes: a doença de base e a infecção. Elas são consideradas gestantes de alto risco, têm uma rotina de acompanhamento diferente. Precisam estar bem orientadas porque essas doenças podem até ser mais prejudiciais e letais do que o próprio coronavírus - opina a ginecologista.

Já a endocrinologista Lenita Zajdenverg, integrante da Sociedade Brasileira de Diabetes, ressalta a importância da gestante diabética buscar seu médico de referência para reavaliar os procedimentos a partir do novo quadro, mas sem pânico:

- O que aconselhamos: a mulher com diabetes que está gestando, que faz o uso de insulina, se for contaminada pelo coronavírus, precisa monitorar a glicemia de forma mais frequente e, provavelmente, aumentar a dose de insulina em função da própria infecção. Precisa procurar seu médico. Os relatos com relação às complicações da gestante com diabetes são praticamente nulos. 

Previna-se!Para evitar o contágio, as dicas são aquelas que se tornaram bem conhecidas: lavar as mãos com frequência, utilizar álcool gel e evitar o contato com pessoas que apresentam sintomas de gripe. Respeitar o isolamento para diminuir o risco também é um ponto essencial. A ginecologista ainda alerta: não saia de casa imediatamente ao perceber os primeiros sintomas.

- A grávida que está bem, tem que ficar em casa. Se estiver resfriada, começar a ter febre, sintomas gripais, é preciso ligar para o médico ou para o serviço de saúde. Pelo telefone, explica como está. Não deve sair de casa sem orientação e nem sair correndo para o pronto-socorro. Precisa ter calma e seguir as orientações para saber, junto com o médico, como conduzir. Está batendo o pavor agora, e algumas gestantes querem ir correndo para o hospital. Mas, lógico, se grávida está prostrada, desanimada demais, febre muito alta, aí não tem jeito, precisa ir presencialmente ser examinada. Se for ao médico, o ideal é tentar marcar um horário com menos circulação de pessoas, para não ficar na sala de espera muito tempo - avalia a médica.

Filhos da pandemiaAs mulheres que darão a luz nos próximos dias não precisam ficar alarmadas. Segundo o  infectologista pediátrico, a prevenção segue a mesma: fique em casa para evitar riscos.

-  As principais medidas são a lavagem de mãos e o distanciamento social de aglomerações e de indivíduos com sintomas de doença respiratória - reforça o especialista.

Ainda de acordo com o médico, não há evidências de que os recém-nascidos tenham ocorrências mais graves caso testem positivo para a covid-19. Há, inclusive, quadros assintomáticos, explica: 

- A quantidade de pacientes reportados até o momento já é uma evidência importante de que as crianças fazem quadros de menor gravidade comparado aos adultos, provavelmente muitas delas sem ou com poucos sintomas.

 


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