26 de Março de 2020
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Falta de equipamentos de proteção preocupa profissionais da saúde e governo acelera compras

Sindicato recebeu 150 denúncias em dois dias. Ministério da Saúde afirmou que iniciou novo processo para 72,4 milhões de unidades de 17 itens de insumos

Sindicato dos trabalhadores da saúde protestou contra falta de equipamentos em postos e hospitaisSindisaúde-RS / DivulgaçãoReutilizar ou trabalhar sem máscara, não ter álcool em gel à disposição e fazer rodízio de uso de avental é a atual realidade para centenas de profissionais da saúde do Rio Grande do Sul que estão na linha de frente do combate ao coronavírus. Apenas entre segunda-feira (23) e terça-feira (24), o Sindisaúde-RS (Sindicato dos Profissionais de Enfermagem, Técnicos, Duchistas, Massagistas e Empregados em Hospitais e Casas de Saúde), recebeu cerca de 150 denúncias sobre falta de equipamentos de proteção individual (EPIs). 

A maior reclamação é a falta de máscaras N95 (azuis, de maior proteção), mas também há relatos de ausência de máscaras cirúrgicas comuns (brancas), aventais, óculos de proteção e álcool em gel. A necessidade levou o Ministério da Saúde a reforçar as compras de equipamentos para distribuição aos Estados e municípios.

O cenário preocupa pelo alto risco de infecção dos trabalhadores e pelo receio em perder mão de obra no combate à epidemia. Na Espanha, dos 40 mil casos confirmados, 14% são médicos, enfermeiros, técnicos e demais funcionários do sistema de saúde. 

A falta de materiais ocorre no mundo inteiro - em alguns hospitais espanhóis, sacos de lixo foram usados nos braços no lugar de casacos descartáveis. O reflexo é nos preços: se antes uma máscara descartável com elástico custava R$ 0,08 a unidade, agora está R$ 4,90. Cada máscara N95 passou de R$ 1,69 para R$ 38. 

O Conselho Regional de Medicina (Cremers) emitiu nota na qual vê "com preocupação" a falta de equipamentos. O Sindisaúde compreende a menor oferta, mas defende que todos que atendam a possíveis infectados tenham máscaras à disposição. A reclamação de trabalhadores é de que, agora, só são testados os casos mais graves de coronavírus que necessitem de internação hospitalar - portanto, há risco de infecção por casos leves ou assintomáticos.

- Entendemos que os governos deveriam intervir nas fábricas para aumentar a produção de EPIs 24 horas por dia. Se os casos dobram a cada dois ou três dias, sem EPIs vai triplicar - afirma Arlindo Nelson Ritter, tesoureiro do Sindisaúde.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informa que o protocolo atual estabelece que máscaras cirúrgicas simples (brancas) devem ser utilizadas por profissionais de saúde ou de apoio, como higienização e manutenção, quando eles prestarem assistência a menos de um metro de distância de pessoas suspeitas ou confirmadas para coronavírus. 

A máscara N95 deve ser usada junto com gorro, óculos, avental e luvas por quem atender a casos suspeitos ou confirmados de coronavírus em procedimento que possa ter contato com gotículas ou secreções. A Anvisa diz que não proíbe que outras pessoas usem esse material, mas orienta o uso seja racionalizado por causa da falta no mercado.

Em um posto de saúde de Sapucaia do Sul, na Região Metropolitana, havia uma única máscara N95 para todos os profissionais, poucas máscaras cirúrgicas e nenhum óculos, descreve uma trabalhadora. No local, não há testes de diagnóstico - quem tem sintomas leves é recomendado a voltar para a casa com atestado de 14 dias para isolamento e quem está pior é encaminhado a um hospital. A assessoria da prefeitura de Sapucaia do Sul informou que há dificuldade para compra de máscaras, mas um novo lote de EPIs chega na semana que vem. 

Em unidades básicas de saúde (UBS) dos bairros Cristal e Tristeza, na Capital, não há álcool em gel e aventais precisam ser compartilhados para lidar com pacientes com sintomas, afirmam dois trabalhadores. Em Canoas, um posto de saúde não tinha na semana passada aventais descartáveis, luvas nem sabão para lavar as mãos, mas a unidade recebeu alguns materiais nos últimos dias. Um médico pontua que muitos profissionais estão com medo e usam equipamentos de forma equivocada. 

A prefeitura de Canoas afirmou que está enfrentando, assim como outros municípios, dificuldades para abastecer os estoques de EPIs, devido ao excesso de demanda e à redução na oferta. O município, seugndo a secretaria de saúde, está pedindo doações à sociedade, além de discutindo junto a empresas fornecedoras o restabelecimento dos materiais e o envio de equipamentos para o Ministério da Saúde. A prefeitura de Porto Alegre não retornou até o fechamento desta reportagem.

Hospitais não têm falta, diz sindicatoO Sindissaúde protestou nos últimos dias em frente aos hospitais Santa Casa, São Lucas da PUCRS e Mãe de Deus para pedir que os profissionais recebam material de proteção. A reportagem recebeu denúncias de que o Mãe de Deus e o Dom João Becker, em Gravataí (administrado pela Santa Casa) instruíram funcionários a não usarem máscaras para não assustar pacientes.

O Sindicato dos Hospitais de Porto Alegre (Sindihospa) diz que não há falta de equipamentos, mas que as instituições têm realizado um controle rigoroso e que a distribuição segue os protocolos da Anvisa. Compras emergenciais estão sendo feitas para os estoques não acabarem. 

O diretor-geral da Santa Casa, Julio Matos, afirma que a instituição segue as diretrizes oficiais e que trabalhadores da linha de frente estão equipados com os recursos necessários. Para o estoque não zerar, mais 1 milhão de máscaras foram compradas. Ele diz que a acusação de trabalhadores do Dom João Becker não procede.

- Ocorre em todo o país uma falta de equipamentos porque o Ministério da Saúde está confiscando materiais, o que gera um desabastecimento em todo o sistema de saúde. Ao mesmo tempo, há uma insegurança muito grande e as pessoas pensam que estarão protegidas usando máscara. Mas máscara não significa prevenção, há protocolos que definem quais locais precisam usá-las - pontua. 

Dois profissionais ouvidos pela reportagem afirmam que alguns hospitais começaram a racionar após funcionários roubarem álcool em gel e levarem caixa de máscaras para casa. Também foi relatado que, por medo, muitos usam máscaras de forma indevida, como para ir ao banheiro ou para se deslocar até o refeitório. 

Em nota, o Hospital São Lucas da PUCRS afirmou que segue protocolos das autoridades, que equipamentos de proteção são fornecidos para quem atende a casos suspeitos ou confirmados e que a instituição vai criar um programa de atenção à saúde mental dos funcionários para proporcionar apoio psicoemocional.

Um médico do Hospital de Pronto-Socorro (HPS) diz que não faltam equipamentos, mas que o uso está controlado e que ele precisa orientar a equipe, lembrando que nem toda situação exige máscara. No Grupo Hospitalar Conceição (GHC), o uso é direcionado para quem lidará com pacientes com sintomas para coronavírus, mas muitas vezes profissionais se expõem a situações em que poderiam adquirir o vírus, segundo Maria Rita de Assis Brasil, médica emergencista da instituição. 

- Além do risco para a pessoa, essa é uma baixa nos serviços de saúde. A cena do atendimento pré-hospitalar (em ambulâncias) não é favorável - diz Maria Rita.

O diretor médico do hospital Mãe de Deus, Fernando Waldemar, nega que faltem equipamentos de proteção e também afirma que muitos profissionais acabam sendo tomados pelo medo e diz que a instituição respeita protocolos oficiais. 

- No Mãe de Deus, quem tem sintomas entra em uma área externa à parte, não circula em outros locais. Os funcionários que fazem a orientação para esses pacientes sintomáticos usam máscara, assim como que está no atendimento a essas pessoas. Quem está em outras áreas não usa máscara porque não há indicação. Usar EPIs de forma adequada é fundamental para eles não esgotarem, mas não há falta - diz Waldemar.

O que diz o Ministério da SaúdeEm nota, a pasta afirma que comprou 60 milhões de unidades de 21 itens de equipamentos de proteção individual (EPI), incluindo óculos de proteção, luvas, álcool em gel, sapatilhas, toucas, máscaras e aventais. Estados já começaram a receber os insumos e devem encaminhar aos municípios. 

A Saúde ainda diz que já iniciou novo processo para compra de mais 72,4 milhões de unidades de EPIs de 17 itens de insumos, como álcool em gel, máscaras cirúrgicas, luvas, óculos de proteção, touca, sapatilhas e aventais hospitalares. O Ministério, no entanto, reforça que tem papel complementar às gestões do Estado e municípios.

 O secretário-executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo dos Reis, disse que, das 15 milhões de máscaras compradas pela pasta, até o momento, 30% já foram encaminhadas aos Estados. Gabbardo destacou que apenas os Estados das regiões Norte e Nordeste não receberam esse tipo de equipamento de proteção individual (EPI) em razão de voos cancelados ou lotados, forçando o transporte rodoviário. 

- Em função desse atraso, enviamos uma segunda remessa que vai de avião e deve sair amanhã (quinta-feira) para as regiões Norte e Nordeste. Estamos solicitando apoio da Força Aérea Brasileira. 

Gabbardo salientou que, a partir de agora, os Estados serão abastecidos semanalmente com remessas de máscaras.

Em relação aos respiradores, o secretário-executivo reforçou que diversas fábricas estão reforçando a produção para acelerar a distribuição dos equipamentos. Gabbardo estima que os primeiras ferramentas dessa fabricação excepcional deverão ser entregues em um mês. Respiradores comprados diretamente da China devem chegar antes, em no máximo 10 dias, projetou o secretário. 

O que diz o governo estadualA Secretaria Estadual da Saúde (SES) afirma que vai auxiliar hospitais com a compra e o fornecimento de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) para trabalhadores, mas não informa como.

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