02/03/2014
Zero Hora
Especial | Pág. 27
Clipado em 02/03/2014 08:03:16
Porto Alegre só na maquete
Com a perspectiva de não concluir a maior parte dos projetos para a Copa até junho, a Capital desperdiça uma grande oportunidade de se apresentar ao mundo em versão mais moderna e funcional

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O plano era aproveitar a Copa para mostrar Porto Alegre ao mundo. Para isso, seria preciso melhorar a cidade e apresentá-la em uma versão mais moderna, sofisticada, funcional e bela, merecedora de receber turistas e atrair investimentos.

Oportunidade melhor não surgirá tão cedo. Durante um mês, entre junho e julho, as atenções do planeta estarão voltadas para as cidades-sede do Mundial. A capital gaúcha vai, necessariamente, virar notícia. A questão era investir para sair bem no retrato. As chances pareciam excelentes. Quando o Brasil foi escolhido pela Fifa, em 2007, Porto Alegre tinha um cardápio de projetos animador, que permitia sonhar com uma cidade mais qualificada, para moradores e visitantes, em junho de 2014. Somados os empreendimentos públicos e privados que estavam na prancheta, previa-se uma transformação profunda.

E a lista de projetos não parava de aumentar. Em 2009, a prefeitura apresentou uma relação de 26 empreendimentos que serviriam para deixar a cidade em condições de receber o Mundial e fazer bonito. Eles incluíam a ampliação da pista do aeroporto, uma linha de metrô entre o Centro e o campus da UFRGS, a revitalização do cais do porto e uma série de intervenções viárias, incluindo viadutos e duplicações de avenidas.

Nesta semana, quando começa a contagem regressiva dos cem dias para o início do Mundial, a constatação é que a chance oferecida a Porto Alegre foi, em larga medida, desperdiçada. Por motivos variados – burocracia, picuinhas políticas, planejamento ruim ou pura falta de dinheiro –, muitos dos principais planos foram abandonados, revistos ou estarão inconclusos. Nem mesmo obras que eram especificamente do pacote da Copa ficarão prontas.

– É um banho de água fria. Porto Alegre ainda não saiu dos anos 70. Vamos mostrar na Copa uma cidade que não se reciclou, com seríssimos problemas de mobilidade, sem carinho consigo mesma e que não aproveita as próprias potencialidades. Significa uma perda, porque compromete em no mínimo 70% a capacidade de aproveitar o evento para atrair turismo e negócios – afirma a professora de arquitetura e urbanismo da UniRitter Maria Isabel Marocco Milanez.

O risco de não terminar projetos após o Mundial

Não entregar projetos a tempo do Mundial também é preocupante, segundo a professora, porque pode significar não terminá-los nem mesmo depois:

– Se tudo for feito depois da Copa, o ônus não será tão pesado, porque Porto Alegre terá uma versão contemporânea da vida urbana. Mas não acredito nisso. Se não conseguimos fazer as obras com o estímulo que a Copa representa, imagina sem esse estímulo.

Há vários exemplos de cidades que se reinventaram a partir de um grande evento. Barcelona talvez seja o melhor deles. Antes da Olímpiada de 1992, era um centro industrial decadente e periférico, fora dos radares. O investimento que fez para os Jogos mudou completamente sua imagem. Barcelona passou a ser vista como uma das cidades mais charmosas do mundo e lucrou com isso. Guardadas as proporções, Porto Alegre também tinha projetos capazes de promover uma virada e se colocar no mapa. Mas quando junho chegar, eles terão existência apenas em uma cidade imaginária, o Porto das Maquetes, que Zero Hora reconstitui nas páginas seguintes.

A Capital que não veremos na Copa

QUALIFICAÇÃO DO AEROPORTO

A pista de pousos e decolagens seria ampliada em 920 metros para permitir a vinda de aeronaves maiores e mais carregadas. Mas a obra sequer começou. Para o Mundial, a Infraero promete colocar em operação o atrasadíssimo sistema que permite pousos com neblina e entregar a reforma do primeiro pavimento do terminal de passageiros. A reforma completa ficou para 2016.

TERCEIRA PERIMETRAL

A via fluiria melhor, com cinco intervenções: uma passagem subterrânea no cruzamento da Anita Garibaldi com a Carlos Gomes, outra na confluência da Cristóvão Colombo com a Dom Pedro II, passagem de nível na Ceará com a Farrapos e dois viadutos, um na Plínio Brasil Milano e outro na Bento Gonçalves. Nenhuma das chamadas trincheiras deve estar concluída até a Copa.

SISTEMA BRT

A principal obra de mobilidade no pacote da Copa – um sistema de ônibus de trânsito rápido em corredores especiais na Bento Gonçalves, na João Pessoa e na Protásio Alves, alimentado por estações de integração grandiosas – vai chegar ao Mundial apenas com o pavimento realizado. O projeto deveria ter ficado pronto no ano passado, mas agora um novo cronograma está em elaboração. As obras que mudaram a cidade Os sete anos desde o anúncio da Copa no Brasil não foram completamente perdidos. De lá para cá, Porto Alegre conseguiu concretizar projetos importantes, alguns diretamente ligados ao Mundial, outros acalentados havia décadas. Eles transformaram a capital gaúcha em uma cidade melhor do que a de 2007. Confira alguns exemplos: Aeromóvel Facilitou a conexão entre o aeroporto e o trensurb, como nas cidades mais desenvolvidas Catamarã Muitas vezes adiado, o transporte hidroviário agilizou a ligação entre Porto Alegre e Guaíba

DUPLICAÇÃO DA VOLUNTÁRIOS DA PÁTRIA

Como parte das obras de preparação para a Copa, a avenida deveria estar duplicada e dotada de ciclovia, em uma extensão de 3,5 quilômetros. Emperrou nas desapropriações, que foram parar na Justiça, e nas escavações arqueológicas. Está sem cronograma definido.

CICLOVIAS Em 2009, a prefeitura de Porto Alegre listou entre as obras para a Copa chegar a 40 quilômetros de ciclovias. Hoje, há 20 quilômetros na cidade. Não há uma previsão fechada, mas no Mundial a extensão deve estar no máximo em 30 quilômetros.

Rodovia do Parque
Ofereceu uma alternativa à estrangulada BR-116

DUPLICAÇÃO DA AVENIDA TRONCO

Obra de mobilidade prioritária para a Copa, previa duplicação da via e corredor de ônibus, oferecendo uma alternativa para o estrangulado acesso à Zona Sul da cidade. Mas não vai ficar pronta. Das 1.525 famílias que vivem no traçado, a prefeitura acertou a saída de 600. A empresa escolhida em licitação para construir casas para desapropriados ainda está sendo analisada pela Caixa.

TEATRO DA OSPA

O plano era começar em 2008 a construção da nova sede da orquestra, um teatro com 1,5 mil lugares no Parque Maurício Sirotsky Sobrinho. Até 2011, o espaço seria entregue. Até agora foram feitas apenas as fundações. Na melhor das hipóteses, sai em 2015.

Shopping Popular
Retirou os camelôs das ruas e transformou de novo o Centro em um lugar para ser visitado

Arena e Beira-Rio
Colocaram o futebol gaúcho no primeiro mundo, em termos de estrutura

Fundação Iberê Camargo
De uma só tacada, redefiniu o lugar de Porto Alegre no mapa das artes e da arquitetura

MULTIPALCO DO THEATRO SÃO PEDRO

O complexo cultural de seis pavimentos ao lado do São Pedro prevê dois teatros, concha acústica, auditório ao ar livre, salas de ensaio, lojas e estacionamento. Era prometido, taxativamente, para 20 de setembro de 2006. Faltou dinheiro. Alguns serviços estão em uso, mas as obras seguem, sem prazo para o término.

NOVA PONTE DO GUAÍBA

Em 2009, era um dos 26 projetos prioritários para a Copa. Em 2010, começaria a ser construída no ano seguinte. Mas em 2011, quando o traçado foi definido, com 7,3 quilômetros, a conclusão já havia sido empurrada para depois da Copa: 2015. A previsão atual é para 2017.

CAIS MAUÁ

Em 2010, anunciava-se a transformação do cais para 2014. Os armazéns estariam reformados (abrigando espaços de lazer e gastronomia), um rebaixamento da avenida criaria uma área verde para integrar o Centro à orla, e o muro viraria uma cortina de água. Também estavam previstos shopping, hotel e torres de escritórios. Em 2011, os planos se resumiam a reformar apenas os armazéns. Agora, são ainda mais modestos: entregar dois galpões. Em vez de atração, o cais, durante a Copa, será um canteiro de obras.

TRATAMENTO DE ESGOTO

O Dmae prometeu colocar em funcionamento em 2012 um complexo de obras que elevaria o esgoto tratado na cidade de 27% para 77%. Durante a campanha eleitoral, o prefeito José Fortunati afirmou que em 2013 seria possível tomar banho no Guaíba, em Ipanema. O projeto sofreu objeções da Fepam, que atrasaram para este ano o funcionamento da Estação de Tratamento de Esgoto Serraria. Um Termo de Ajustamento de Conduta definiu que o uso será gradativo. Durante a Copa, o tratamento de esgoto estará em 33%.

REVITALIZAÇÃO DA ORLA

Em fevereiro de 2012, o prefeito José Fortunati anunciou a reurbanização de 5,9 quilômetros da orla, do Gasômetro até o Arroio Cavalhada. O arquiteto Jaime Lerner idealizou um parque ribeirinho, com novo calçamento, ciclovia, bares, quiosques renovados, deques de madeira e uma escadaria que serviria de arquibancada para o pôr do sol. Era para ficar pronto em 2013, mas o projeto (ou melhor, um primeiro trecho de 1,5 quilômetro) entrou 2014 sob análise do Tribunal de Contas do Estado. A prefeitura planeja começar a obra depois da Copa.