29 de Maio de 2018
  • Globo Esporte
  • Esporte

Nadadores do país viajarão 38,5 mil km em "volta ao mundo" por torneios em agosto

Maratona fará com que seis atletas disputem em menos de 20 dias o Pan-Pacífico em Tóquio (Japão), Mundial Militar em Samara (Rússia) e Troféu José Finkel, em Guarantinguetá, interior de São Paulo

Seis nadadores brasileiros viverão uma autêntica maratona em agosto com a disputa de três competições, todas elas de alto nível, em um prazo inferior a 20 dias. Mais do que isso, os deslocamentos previstos entre as competições somarão cerca de 38,5 mil quilômetros, só um pouco menos do que os 40 mil quilômetros da circunferência terrestre.

Para Leonardo de Deus, Gabriel dos Santos, Pedro Spajari, Viviane Jungblut, Brandonn Almeida e Leonardo Santos, a volta ao mundo começa com um trajeto de 18,5 mil quilômetros entre São Paulo e Tóquio. Na capital japonesa, eles disputarão o Campeonato Pan-Pacífico, principal compromisso da seleção nacional em piscina longa (50m) na temporada, entre os dias 9 e 13 de agosto. O evento reúne potências da modalidade, como Estados Unidos, Japão, Austrália e Canadá, e o Brasil participa como convidado.

Três dias -e 6,8 mil quilômetros- depois, o grupo cai na água em Samara, na Rússia, onde compete no Mundial Militar de natação, cujo término é no dia 22. Na sequência, todos têm dois dias para se apresentar aos seus clubes e nadar o Troféu José Finkel, em Guaratinguetá (SP), que é seletiva para o Mundial em piscina curta (25m) em Hangzhou, que acontece na China em dezembro.
Leonardo de Deus, que vai representar o Brasil em três torneios em agosto (Foto: Satiro Sodré/SSPress/CBDA) Leonardo de Deus, que vai representar o Brasil em três torneios em agosto (Foto: Satiro Sodré/SSPress/CBDA)

Leonardo de Deus, que vai representar o Brasil em três torneios em agosto (Foto: Satiro Sodré/SSPress/CBDA)

A proximidade das datas obrigou a CBDA (Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos) a alterar, em fevereiro, a data do Troféu José Finkel. Em vez de tradicionalmente terminar em um sábado -que no caso seria dia 25 de agosto-, o certame vai acabar na terça-feira (28). A situação gerou uma saia-justa entre clubes, a confederação e as Forças Armadas, às quais são ligados a maioria dos atletas da seleção brasileira. Os convocados de Exército, Marinha e Aeronáutica não podem pedir dispensa de missões, sob pena de receberem sanções.

Os próprios nadadores se disseram preocupados com a maratona, porém consideram a jornada tripla um bom preparativo na rota para os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020. Gabriel Santos, de 22 anos, viu um cenário semelhante na temporada passada, quando disputou o Campeonato Mundial de Budapeste (Hungria), o Troféu José Finkel (Santos) e a Universíade (Taiwan) em sequência, embora com maior espaço entre eles.

- O número de competições é o mesmo, mas agora é mais apertado. A parte mais difícil vai ser a de recuperação entre uma competição e outra. A loucura do fuso horário também é bem complicada, já que vamos passar da Ásia para a Europa e depois voltar para o Brasil. Atrapalha muito o sono e o corpo fica enlouquecido - disse Santos, que em Budapeste foi medalhista de prata com o revezamento 4x100m livre ao lado de Cesar Cielo, Bruno Fratus e Marcelo Chierighini.

Ao todo, o velocista acredita que cairá na água de 15 a 20 vezes nos 20 dias entre competições e viagens. Suas provas serão os 50m e 100m livre, 50m borboleta e revezamentos. Para aplacar tanto desgaste, o que considera uma "loucura", pretende lançar mão de improvisos. Uma das ideias é levar um rolo de alongamento e uma calça de compressão na mala de mão para os voos.

- Vai ser um desafio e tanto, mas estou bem feliz de representar meu país e meu clube. Se eu estou cheio de provas para nadar é porque as coisas estão no caminho certo - comentou.

Seu companheiro nas provas de velocidade e de treinos no Esporte Clube Pinheiros, Pedro Spajari, 21, jamais passou por tamanha provação nas piscinas.

- Nunca vivi isso, mas como somos atletas de alto rendimento é preciso estar preparado para tudo. Agora que surgiram as três, é preciso ter foco, treinar bastante e manter o trabalho - disse.

Sensação da nova safra brasileira, detentor de um dos melhores tempos do mundo nos 100m livre na temporada (47s95), ele não deposita confiança no improviso. Quer se planejar ao máximo para não ter contratempos em meio às performances e deslocamentos. E, para isso, tem feito trabalho com psicólogo e outros profissionais multidisciplinares.

- O cansaço virá, com certeza, porque são competições longas e em países diferentes. E tem o fuso horário. Mas é tomar suplemento direitinho, se alimentar bem e manter a imunidade alta para não ficar doente - afirmou.
A nadadora Viviane Jungblut, que vai disputar o Pan-Pacífico, o Mundial Militar e o Troféu José Finkel (Foto: Satiro Sodré/SSPress/CBDA) A nadadora Viviane Jungblut, que vai disputar o Pan-Pacífico, o Mundial Militar e o Troféu José Finkel (Foto: Satiro Sodré/SSPress/CBDA)

A nadadora Viviane Jungblut, que vai disputar o Pan-Pacífico, o Mundial Militar e o Troféu José Finkel (Foto: Satiro Sodré/SSPress/CBDA)

Além dos 100m livre, o velocista também vai nadar os 50m livre e os revezamentos 4x100m livre e 4x100m medley. No Pan-Pacífico, ele fará sua estreia pela seleção adulta em um torneio de peso -até hoje só participou de um Campeonato Sul-Americano.

Embora empolgada por defender as seleções, a fundista Viviane Jungblut, 21, não esconde o temor pelo desgaste. Ela vai participar de provas de maratona aquática em Tóquio, e depois competirá em piscina tanto no Mundial Militar quanto no Troféu José Finkel.

- Vai ser difícil competir em bom nível nas três disputas. Elas não vão ser fáceis. Vou ter que me esforçar bastante e para isso o mais importante é planejamento e recuperação. Preciso tomar um pouco de cuidado com a alimentação, que acredito que possa fazer bastante diferença no final - comentou a nadadora gaúcha.

Antes da participação no Pan-Pacífico, a seleção brasileira ainda fará uma aclimatação na cidade japonesa de Sagamihara, a cerca de 45 minutos de Tóquio. O local também será base da equipe nacional de natação antes de se apresentar no Campeonato Mundial de Gwangju, na Coreia do Sul, este em piscina longa (50), em julho do ano que vem, e nos Jogos Olímpicos de 2020.

Leonardo de Deus, que já esteve em duas Olimpíadas, é o mais experiente entre os seis atletas que farão a jornada de agosto e acredita que o sofrimento maior virá na última das três paradas, em Guaratinguetá, quando ocorre a seletiva para o Mundial em piscina curta.

- No Troféu José Finkel é quando precisaremos ter mais cabeça. Já estaremos um mês fora de casa e com fuso horário totalmente diferente. Os clubes querem que a gente chegue ao Finkel muito bem, só que vai ser difícil. Mas, como ainda temos um tempo até as viagens, eu e meu técnico queremos fazer uma preparação que consiga segurar o máximo possível - disse o atleta da Unisanta.

- Apesar do desgaste, não podemos nos abater nem dizer que não vai dar certo ou achar que não vai sair bem em nenhuma das três - complementou Leonardo de Deus.

Técnico de Spajari e Santos no Pinheiros e na seleção brasileira, Alberto Pinto da Silva, o Albertinho, contou que um debate foi travado entre clubes, as Forças Armadas e a CBDA devido ao acúmulo de competições.

- [O excesso de eventos] Vai contra a minha vontade. Eu não submeteria nenhum atleta a três eventos seguidos. Nós estamos falando de três trocas de fuso horário, três trocas de cidade, três trocas de alimentação, língua, costumes e rotina. Tudo isso longe do estafe que os acompanha diariamente. E, por último, os nadadores ainda têm de defender seus clubes em uma seletiva para um Campeonato Mundial - ponderou.

Diretor-geral de esportes da CBDA, Renato Cordani reconheceu que a profusão de provas pode ser danosa aos competidores. Porém, apontou que a questão de ajuste do calendário "foge da alçada" da confederação. E que as Forças Armadas têm direito de convocar os melhores, uma vez que dá bolsas aos atletas que fazem parte de seus quadros.

Cordani também afirmou que houve pedido para que o Troféu José Finkel fosse adiado em uma semana, o que a entidade considerou impossível de aceitar. No fim, a opção foi adiar o início em três.

- De qualquer forma, o Finkel foi marcado para 14 semanas antes do Mundial em piscina curta, o que os técnicos aprovam como um período aceitável para preparação. Mas, de fato, vai ser uma maratona para todos os atletas militares da seleção - disse.

Veja quais nadadores farão "volta ao mundo" em agosto

Pedro Spajari (Força Aérea)
Gabriel Santos (Força Aérea)
Viviane Jungblut (Força Aérea)
Leonardo Santos (Exército)
Brandonn Almeida (Marinha)
Leonardo de Deus (Exército)