05 de Julho de 2018
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O sonho não pode morrer

Sexto colocado no NBB 10, time caxiense encontra dificuldades para buscar recursos e pode se afastar das competições nacionais na próxima temporada

Um sonho que pode morrer por falta de incentivo. Justamente após a melhor campanha de sua história no Novo Basquete Brasil (NBB), na temporada 2017/2018, de quebrar recordes de público e de envolver toda uma cidade, o Caxias do Sul Basquete/Banrisul ainda não encontrou recursos para seguir em frente.

O apelo popular da equipe, que terminou em sexto lugar na última liga nacional, ainda não trouxe reflexos ao clube, que diferentemente do que se imaginava, novamente corre desesperadamente atrás de verba para não deixar se perder no tempo o causador de tanto orgulho ao esporte caxiense.

Durante a excelente campanha do time no NBB 10, se tinha uma ideia de que o encaminhamento da renovação de contratos e até mesmo a manutenção do grupo de jogadores para o período seguinte seria mais tranquilo. Em anos anteriores, a captação dos recursos só aconteceram no prazo limite da confirmação de participação no campeonato. Desta vez seria diferente? Não foi.

Praticamente todos os atletas já encontraram outras equipes para atuar na temporada 2018/2019 e as dúvidas sobre a continuidade do trabalho pairam no ar. O prazo máximo para que o Caxias apresente as garantias financeiras e confirme a participação no NBB 11 é 24 de julho.

Até o momento, o único patrocínio encaminhado é o do Banrisul, através da Lei Federal de Incentivo ao Esporte. No entanto, o investimento do banco estatal não pode ser revertido na contratação de jogadores.

O dinheiro colocado no clube é, basicamente, para questões estruturais. Ou seja, os custos com deslocamento, hospedagem e alimentação seriam arcados pela parceria que já vem há alguns anos, antes mesmo do time chegar à elite do basquete nacional.

O problema maior passa pela formação do grupo de jogadores que vão formar o time – e que sequer foram contratados ainda – e as acomodações deles na cidade. Para isso, acertar com os outros investidores é imprescindível.

Na temporada que terminou em maio, além do patrocínio máster do Banrisul – algo em torno de R$ 1,2 milhão no ano–, quatro empresas estamparam suas marcas em uma segunda linha de apoio – totalizando, juntas, pouco mais de R$ 100 mil/mês. Outras 28 também estiveram ligadas ao Caxias Basquete durante o NBB 10. Nem todos foram diretamente com dinheiro em espécie. Hotel para a moradia dos atletas, alimentação e academia para treinamentos estiveram entre os diversos negócios que se aliaram ao time.

A maioria desses apoiadores de menor impacto direto nos cofres do clube devem ser renovados sem grandes dificuldades. O problema maior passa justamente pelos investimentos mais substanciais na montagem e manutenção do time.

Dos quatro parceiros que davam a sustentação para a formação da equipe, um é certo que não permanece. Os outros ainda estão em processo de negociação, mas sem uma posição oficial de acerto ou não. A rede hoteleira que hospedou 95% dos atletas mudou a direção e também não renovou o apoio.

São menos de 20 dias para que uma solução seja encontrada e o sonho de manter uma equipe na elite do basquete nacional não se apague pela falta de apoio. Caso contrário, o Caxias deve pedir licença para a liga e iniciar tudo do zero.

Os reflexos da equipe na economia local
Para a economia caxiense, a presença do Caxias Basquete no principal campeonatos do país tem uma relação positiva. Para a rede hoteleira, por exemplo, o reflexo é significativo. Durante o NBB 10, foram pelo menos 35 pernoites de equipes durante a temporada, com média de delegações de 16 pessoas entre atletas e comissões técnicas. Somam-se a isso os times que trouxeram torcida e familiares de jogadores nascidos no restante do Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, e que ficaram na cidade pelo menos uma noite.

Outro ponto citado é o dos restaurantes. Muitas pessoas de outras cidades vêm para Caxias acompanhar os jogos no Vascão e fazem, pelo menos, uma refeição na cidade em cada jogo.

Segundo o presidente do Sindicato Empresarial de Gastronomia e Hotelaria (Segh) de Caxias do Sul, Vicente Perini Filho, independente do período do ano, os eventos esportivos representam um aumento importante nas ocupações disponíveis em Caxias.

– Todos os eventos rendem um crescimento na rede hoteleira entre 5% e 10%. Dependendo do adversário, vem um número considerável de pessoas e torcedores – diz Perini, que torce pela sequência do Caxias Basquete no convívio dos grandes do esporte nacional:

– Não tem como não querer isso. Tem que ter mais eventos desse tipo na cidade. Esporte movimenta muito e precisamos disso.

Pouco apoio das empresas locais

De outro lado, o apoio do empresariado caxiense continua como o grande obstáculo para o crescimento do time. Sem contar os patrocinadores que, em grande parte, acompanham o Caxias Basquete desde os primeiros anos do clube, os grandes investidores locais seguem reticentes em investir no esporte.

– Infelizmente isso acontece. Depois da Enxuta (no futsal, na década de 1990), o pessoal diminuiu o investimento. Mas, para a imagem institucional de uma empresa, seria sensacional – diz Ivanir Gasparin, presidente da Câmara da Indústria, Comércio e Serviços (CIC) de Caxias do Sul.

Segundo Gasparin, há um comportamento padrão dos empresários no períodos de crise, o que acaba refletindo nos incentivos à determinadas áreas:

– O primeiro corte acaba sendo na cultura e no esporte. O empresário da região não é muito voltado para isso. As leis de incentivo ainda ajudam um pouco. Acredito que passando esse momento, o apoio possa ser maior.

“Não jogar o próximo NBB é voltar um passo atrás no tempo”, diz presidente da FGB
Um dos fundadores do Caxias Basquete e atual presidente da Federação Gaúcha de Basquete (FGB), Rogério Caberlon, lamenta o fato de o time novamente encontrar obstáculos gigantes para a confirmação da participação no NBB:

– É uma pena ter toda essa dificuldade. O Rio Grande do Sul deveria ter um reconhecimento maior pelo que vem sendo feito. O basquete no Estado vem crescendo junto com o time, cada vez mais crianças estão praticando e pessoas acompanhando o esporte.

Segundo Caberlon, o retrocesso para a modalidade será prejudicial caso não haja a confirmação da participação do time na temporada 2018/2019.

– Não jogar o próximo NBB é voltar um passo atrás no tempo. O prejuízo será muito grande para a cidade, para o Estado, sem um representante no elite da modalidade, e para todos os amantes do esporte. O basquete de clube voltou a ser forte, está disputando com o vôlei o segundo lugar em popularidade.

Sobre a busca de investimentos para a disputa da próxima edição do campeonato nacional, Caberlon acredita que as marcas que se associarem ao time têm uma visibilidade diferenciada.

– O Caxias Basquete seria uma mídia muito mais barata do que qualquer empresa faz – afirma Caberlon, que vê com naturalidade o desmanche do grupo de jogadores após a excelente campanha no NBB 10:

– Eu já tinha isso como certo. Se olhar a S.E.R. Caxias, campeã em 2000, saíram os bons, os médios e os ruins. Os nossos jogadores se valorizaram. Alguns fizeram contratos que podem resolver a vida financeira deles. Com a verba confirmada, montar o time não será um problema. SEGUE

Principais nomes não permanecem
A situação indefinida do Caxias Basquete reflete diretamente na montagem de um grupo para a próxima temporada. É difícil competir com quem tem maior poder de investimento, como os times de São Paulo e Rio, e, principalmente, com quem entra na disputa mais cedo.

Os principais jogadores da equipe no NBB 10 já estão treinando em outros times. O ala Cauê Borges acertou sua transferência para o Botafogo-RJ, assim como auxiliar técnico Léo Figueiró. O armador Cauê Verzola e o pivô Marcão foram contratados pelo Bauru. O Minas acertou com o pivô Paranhos. Já o armador argentino Enzo Cafferatta foi confirmado pelo Mogi.

Quem também deve confirmar um novo destino em breve são os alas Pedro e Alex. Ou seja, dos atletas que tinham mais tempo em quadra na última temporada, ninguém deve permanecer.

AS SAÍDAS
(Ver imagem)

O pedido de um atleta olímpico pela continuidade
Logo após o término do NBB 10, e bem antes da situação se apresentar tão difícil para o Caxias Basquete seguir o projeto, o ex-atleta olímpico Celso Scarpini entrou em contato com o Jornal Pioneiro. O motivo: a importância do crescimento do time para o basquete gaúcho.

Natural de Porto Alegre, Scarpini, 73 anos, vivenciou grandes momentos da modalidade no país e no Estado. Atuou ao lado de nomes como Wlamir Marques, Rosa Branca, e Ubiratan, nas décadas de 1960 e 1970. Participou da Olimpíada de 1968 (4º lugar) e foi vice-campeão pan-americano em 1963, em São Paulo. Nos clubes, iniciou no Grêmio Náutico União, em Porto Alegre, jogou por Corinthians e Fluminense, entre outros.

O currículo o deixa apto para ver o momento do cenário estadual.

– O basquete gaúcho esteve entre os melhores do país. Decaiu, mas hoje me orgulho muito por ver o Caxias Basquete na elite. Para o Estado e, principalmente para a Caxias do Sul, é algo fundamental. No último NBB, foi uma equipe que não ficou devendo em nada para os melhores do país. Precisamos incentivar que os grandes jogadores venham para cá e que exista o incentivo para os jovens que estão iniciando na modalidade – destaca.

Após o sucesso do Corinthians, em Santa Cruz do Sul, na década de 1990, foi em Caxias que o basquete gaúcho ressurgiu nacionalmente. Por conta disso, Scarpini diz que o projeto não pode morrer:

– As empresas têm que se conscientizar da importância do Caxias Basquete para a cidade e a região. Se o basquete e o esporte tiverem o apoio merecido, outras áreas vão crescer naturalmente. A cidade pode se tornar, de fato, um polo do basquete. É fundamental neste momento valorizar o que foi feito até aqui pelo clube.